Amadeu foi o irmão de Letice que mais sentiu a sua morte. Chorou desde o momento em que ela teve a sua primeira hemoptise.
Quando ela agonizava a beijava suplicando a todos os santos para que não a deixassem morrer.
Ao expirar Letice, Amadeu teve uma forte crise: caiu semimorto.
E assim até ao momento da saída do caixão. Ora conformado, ora em choro convulsivo, ora fora de si.
São oito horas da noite.
Pelas ruas escuras de Santa Rita quase ninguém se vê.
No balcão da venda do Papai, alguns fregueses de parati ali se achavam: o Ermínio, o José Surdo, o Pedro Tomaz, o Basílio. O Basílio é tido em, Santa Rita como a pessoa que mais entende de História do Brasil.
Chega seu Maximiano dando notícia a Papai que Amadeu desaparecera. Saiu pra rua e não voltara.
Que fazer?...
O Papai sai, com os presentes, Rua Bananal a baixo. Nós morávamos na Ladeira do Conselho.
Luz nenhuma havia na rua. A Farmácia do Xandico já tinha fechado. A casa de dona Floriana tinha luz lá pra dentro. Só a casa de seu Orlando tinha lamparina acesa na sala de visitas.
Santa Rita estava velada por um manto de crepe feito pela noite. Luto por causa de Letice.
Chegamos à casa de tio Guilherme, à beira da ponte do Rio Bananal e lá se arranjaram quatro lanternas de folha de Flandres, que ele tinha feito. Tio Guilherme é funileiro, e à noite, não andava pelas ruas de Santa Rita sem a sua lanterna à mão. Daí a pouco também o seu João Mariano arranjou uma porção de lanternas
Voltamos à venda do Papai e este tirou da prateleira uma porção de velas de duzentos réis que ele comprara do seu Carlos Simões, viajante do Carlos de Araújo, em Barra do Piraí, e colocou-as nas lanternas.
Tio Guilherme ajuda-o nesse serviço, puxando a sua latinha de tomar café e oferecendo aos circunstantes.
Daí a pouco, um grupo enorme de pessoas conduzindo lanternas de folhas de Flandres, outras apenas com velas metidas num funil jeito de papel de embrulho procurava Amadeu pelas ruas tortuosas e escuras de Santa Rita.
Pelas casas, pelos cantos das cercas, pelas margens do rio Bananal e Jacutinga, tudo se revolvia. Em lugar nenhum se encontraram indícios.
Quando subíamos a Rua do Juca Panaca e íamos passando pela volta em que tio Guilherme viu assombração, uma vez. Quebrou nela um guarda-chuva, encontramos o Tomaz. Este gaguejando, nos da a notícia que o Amadeu tinha ido lá pros lados do Barro Branco.
O grupo, quase que fúnebre devido ao efeito das lanternas e velas avulsas, alcançam o Largo da Matriz e daí a pouco descia a Ladeira do José Gomes.
Depois de muito procurar pelos cantos das casas do Bairro da Santa Casa, um dos presentes teve a lembrança de ir ao cemitério do Barro Branco.
Para lá seguiu um grupo, cheio de medos, fazendo medo aos que de longe assistiam a aquele espetáculo quase que macabro.
Percebeu-se que a porta do cemitério estava aberta.
Persignando-se entra... É meia noite! Diz um, tremendo de medo, consultara o relógio.
Quadro terrível o que defrontaram no cemitério:
O Amadeu, louco de todo, cavava a sepultura de Letice.
Com as mãos jogava a terra que a cobria para fora, com um esforço insano, com o fito de livrá-la da morte!
Rio Preto, 10 de Fevereiro de 1934.
José Marinho de Araújo.
Quando ela agonizava a beijava suplicando a todos os santos para que não a deixassem morrer.
Ao expirar Letice, Amadeu teve uma forte crise: caiu semimorto.
E assim até ao momento da saída do caixão. Ora conformado, ora em choro convulsivo, ora fora de si.
São oito horas da noite.
Pelas ruas escuras de Santa Rita quase ninguém se vê.
No balcão da venda do Papai, alguns fregueses de parati ali se achavam: o Ermínio, o José Surdo, o Pedro Tomaz, o Basílio. O Basílio é tido em, Santa Rita como a pessoa que mais entende de História do Brasil.
Chega seu Maximiano dando notícia a Papai que Amadeu desaparecera. Saiu pra rua e não voltara.
Que fazer?...
O Papai sai, com os presentes, Rua Bananal a baixo. Nós morávamos na Ladeira do Conselho.
Luz nenhuma havia na rua. A Farmácia do Xandico já tinha fechado. A casa de dona Floriana tinha luz lá pra dentro. Só a casa de seu Orlando tinha lamparina acesa na sala de visitas.
Santa Rita estava velada por um manto de crepe feito pela noite. Luto por causa de Letice.
Chegamos à casa de tio Guilherme, à beira da ponte do Rio Bananal e lá se arranjaram quatro lanternas de folha de Flandres, que ele tinha feito. Tio Guilherme é funileiro, e à noite, não andava pelas ruas de Santa Rita sem a sua lanterna à mão. Daí a pouco também o seu João Mariano arranjou uma porção de lanternas
Voltamos à venda do Papai e este tirou da prateleira uma porção de velas de duzentos réis que ele comprara do seu Carlos Simões, viajante do Carlos de Araújo, em Barra do Piraí, e colocou-as nas lanternas.
Tio Guilherme ajuda-o nesse serviço, puxando a sua latinha de tomar café e oferecendo aos circunstantes.
Daí a pouco, um grupo enorme de pessoas conduzindo lanternas de folhas de Flandres, outras apenas com velas metidas num funil jeito de papel de embrulho procurava Amadeu pelas ruas tortuosas e escuras de Santa Rita.
Pelas casas, pelos cantos das cercas, pelas margens do rio Bananal e Jacutinga, tudo se revolvia. Em lugar nenhum se encontraram indícios.
Quando subíamos a Rua do Juca Panaca e íamos passando pela volta em que tio Guilherme viu assombração, uma vez. Quebrou nela um guarda-chuva, encontramos o Tomaz. Este gaguejando, nos da a notícia que o Amadeu tinha ido lá pros lados do Barro Branco.
O grupo, quase que fúnebre devido ao efeito das lanternas e velas avulsas, alcançam o Largo da Matriz e daí a pouco descia a Ladeira do José Gomes.
Depois de muito procurar pelos cantos das casas do Bairro da Santa Casa, um dos presentes teve a lembrança de ir ao cemitério do Barro Branco.
Para lá seguiu um grupo, cheio de medos, fazendo medo aos que de longe assistiam a aquele espetáculo quase que macabro.
Percebeu-se que a porta do cemitério estava aberta.
Persignando-se entra... É meia noite! Diz um, tremendo de medo, consultara o relógio.
Quadro terrível o que defrontaram no cemitério:
O Amadeu, louco de todo, cavava a sepultura de Letice.
Com as mãos jogava a terra que a cobria para fora, com um esforço insano, com o fito de livrá-la da morte!
Rio Preto, 10 de Fevereiro de 1934.
José Marinho de Araújo.

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