domingo, 23 de novembro de 2008

não dorme há cinco dias. Não se afasta da cabeceira de Letice.
Dona Rosalina e dona Emerenciana também não saem de lá. Estas santas mulheres socorrem a todo e qualquer doente na Freguesia.
O pai de Letice, seu Antônio Spinelli, antigo comerciante na Praça de Santa Rita onde, noutros tempos manteve uma fábrica de cerveja, ali na esquina da Rua do Cotovelo e Ladeira do Conselho - não se achava em casa. Seus filhos, irmãos de Letice, Sebastião, Nicolau e Amadeu lá se achavam como a caçula Maria, aluna de dona Maria Professora.
Seu Pedro de Castro não se afasta de lá. Ele é filho de dona Floriana e enteado do seu Antônio Spinelli.
Todos choravam.
Letice tem seu mal agravado - o resfriado produzia uma forte hemoptise.
E como a leveza da brisa que sopra da cachoeira do rio Bananal para a Serra do Lagarto, o espírito de Letice desprendeu-se dos liames da matéria, procurando as paragens espirituais.
Antes de entrar no período extremo da moléstia, já prevenida pela marcha desta, do próximo desenlace, Letícia pediu que no seu enterro só se tocasse música alegre. Não queria Marcha Fúnebre.
Quando o seu espírito abandonou a matéria; em suave avatar, a natureza engalamou-se em festas.
O sol deixou de ser raquítico, lançando com força os seus raios por sobre o arraial, queimando as bananeiras do Morro da Formiga, das hortas do Sebastião Monteiro, enchendo de fulgor os cirros dos morros do Santo Cruzeiro, Lagarto, Papagaio, Barro Branco do Mineiro e da Cachoeira.
Só um cirrus lá pros lados do Barro Branco, com alvura de sonho, enchia de beleza o céu azul de Santa Rita. Cirrus, brilhante engastado no ouro azul do céu.
Até os rumores das linfas do Bananal e Jacutinga que fazem junção dentro do arraial, lá pelos lados do Rosário, eram diferentes. Parecia que cantavam. E que canto! Quem se debruçasse sobre a confluência cristalina, julgaria este canto. Santa Rita tem as suas Nereidas, tem a sua fonte de Agarupe.

Na minha cabecinha de oito anos embaralhavam-se os esplendores da natureza em festa, com a mágoa profunda existente no meu coração com a perda de Letice.
Parecia-me que os querubins celestiais cantavam na harpa de Orfeu para receberem este grande espírito que foi Letice.

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